“Se ele soubesse que viria ao Japão para ficar mais de 20 anos e ter essa vida, ele não teria vindo”

Hiroshi é um trabalhador nipo-brasileiro imigrante no Japão.

Ele trabalha numa indústria metalúrgica na região de Chubu.

Hiroshi faz em média 40 horas-extras, distribuídas em vinte dias por mês, a um salário de ¥1.200/H mais o adicional de 25% sobre as horas-extras.

Assim, ele recebe cerca de ¥252.000 mensais de salário bruto.

Como todo trabalhador, Hiroshi tem descontado do seu salário 13,85% de Seguro Social; 0,85% de seguro desemprego; 2% de imposto de renda e 5% de imposto residencial; ou seja, é descontado de seu salário bruto algo em torno de ¥54.684 em impostos e encargos, o que representa cerca de 21,7% do salário total deste trabalhador.

Sobra ao nosso amigo ¥197.316 de salário líquido.

Porém, Hiroshi é adepto da “teologia da prosperidade”.

Ele tem de dar 10% de dízimo do seu salário bruto para o ministério do qual é membro e 3% de ‘primícias’ para o bem-estar do pastor, conforme orientação de um “teólogo” da “prosperidade” que oferece “cobertura espiritual” para o “ministério” que Hiroshi faz parte.

Sendo assim, dos ¥197.316 que caíram na conta bancária de Hiroshi, ele tem de tirar 13% para pagar os “impostos” cobrados pelos “agentes da teologia da prosperidade” — do Evangelho é que não é! —, algo em torno de ¥32.760 mensais.

Até agora, já foram abatidos 34,7% do salário bruto de Hiroshi: 21,7% para o governo japonês e 13% para os agentes da “teologia da prosperidade”.

A partir dessas deduções é que ele terá de articular os gastos com contas a pagar e com o orçamento doméstico mensal. Restou-lhe ¥164.556.

Desse montante, Hiroshi terá de subtrair:

¥40.000 de aluguel — num prédio habitacional da província, que segundo a missionária que o orienta, é “bença, irmão!”; trata-se de um prédio velho, uma sub-habitação, cheio de baratas, fungos e umidade.

¥22.000 de água, luz, gás (sem usar ar condicionado);

¥6.500 de internet;

¥23.000 de softbank (2 iPhones);

¥6.500 de seguro do carro;

Estas são as contas que já devem ser pagas assim que o dinheiro do salário cai na conta.

Sobra-lhe ¥66.556, o que representa 26,4% do salário bruto de Hiroshi, que, finalmente, ele poderá pensar em como melhor administrá-lo.

Ah, mas espere um pouco…

Ele é adepto (leia-se vítima) da “teologia da prosperidade”, e os agentes lhe constrange a “ofertar” semanalmente. Como pega mal colocar moedas na cestinha da oferta, Hiroshi põe logo ¥1.000 semanalmente, ou melhor, ¥2.000, ¥1.000 dele e ¥1.000 da esposa. Hiroshi já deixa a quantia relativa à “oferta” separada já no início do pagamento. Subtrai-se, então, uns ¥8.000 dos ¥66.556 que havia sobrado.

Agora sim, Hiroshi possui em mãos ¥58.556 — 23,2% do salário inicial — para gastos com alimentação, lazer, gasolina, artigos comercializados no ministério que frequenta e… com os 8% de imposto sobre consumo (shohizei).

Vejam como o salário bruto deste trabalhador, o fruto do suor deste pobre homem, já foi dilapidado antes mesmo de servir efetivamente a sua família.

Só para contextualizar… Nosso amigo tem um casal de filhos em idade escolar, no Shougako, mais precisamente. A esposa de Hiroshi não trabalha. Não para em serviço. Sempre que começa a trabalhar, logo aparece alguma dor. Quando não é isto, é alguém que “parece que tem inveja” dela, segundo ela mesma. Sendo assim, é melhor ela ficar em casa, “cuidando das crianças”, “acompanhando-as nos estudos”. Mas a esposa de Hiroshi gosta mesmo é de ficar “navegando na net”, gosta de parolar em grupos de Facebook. A esposa de Hiroshi é um “peso morto” que ele terá de carregar.

Hiroshi está frito.

Ele precisa mesmo é se desvencilhar da “teologia da prosperidade”, da tutoria dos agentes desta corrente que, na verdade, nem é teologia, e sentar-se, como homem e pai, e ter um diálogo franco com sua consorte.

Se não, continuará trabalhando para construir o sonho dos outros, a saber, do governo japonês, que quer se salvar, como todo governo, e dos agentes da “teologia da prosperidade” que o orientam e são os únicos que, de fato, prosperam nessa história toda de arrecadação — ao menos do ponto de vista financeiro.

Hiroshi precisa conhecer, de fato, o Evangelho; mas sem ser pela perspectiva da “teologia da prosperidade”, que, como diz um cartaz que este que vos escreve certa vez viu:

“Transforma igrejas em empresas e crentes em clientes. E enquanto seus agentes enriquecem, o povo [pessoas como o sr. Hiroshi] empobrece espiritual, cultural, social e financeiramente.”

Talvez você que está a ler estas linhas seja um Hiroshi da vida. Ou talvez conheça um Hiroshi. Talvez não esteja envolvido com a “teologia da prosperidade” mas está, a troco da tutoria de alguém que pense por você, trabalhando para terceiros e não para você mesmo, para sua família, tampouco para Deus. Pense nisto.

Um forte abraço.

Connexion.tokyo Team